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DIPLOMA UNIVERSITÁRIO BLINDA TRABALHADORES DO DESEMPREGO NA CRISE, MAS RENDA CAI

Taxa de desocupação de quem tem nível superior é a menor do país, 6,6%, mas rendimentos tiveram queda de 8% entre o primeiro trimestre de 2014 e o início de 2018

O diploma de ensino superior foi capaz de blindar brasileiros do desemprego durante a recessão. No primeiro trimestre deste ano, dado mais recente da Pnad Contínua, do IBGE, enquanto a taxa de desocupação média do Brasil estava em 13,1%, entre os trabalhadores com o mais alto nível de escolaridade a taxa era de apenas 6,6% — a mesma de Santa Catarina, estado que tem o menor índice entre as 27 unidades da federação. É a única que não ficou em dois dígitos no início de 2018. Por trás dessa blindagem, no entanto, há fatores que não escapam à precarização do mercado de trabalho imposta pela crise. Segundo especialistas, boa parte dessa valorização ocorreu porque essa mão de obra qualificada, para não ficar sem emprego, aceitou ganhar um salário menor.

A renda média de quem tinha ensino superior foi uma das que mais caíram durante a crise, considerando-se os grupos por escolaridade. A queda foi de 8%, o que pode indicar tanto achatamento como desemprego e recolocação por salário menor, avalia Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE. Passou de R$ 5.071 no primeiro trimestre de 2014 para R$ 4.663 no mesmo período de 2018.

- Muitas empresas que terceirizavam mão de obra, inclusive qualificada, trocaram de contrato para reduzir custos, contratando outros trabalhadores por salário menor. A crise também levou muitas pessoas com ensino superior a empregos informais. Elas tiveram de se adaptar ao que havia no momento - analisa Dilza Taranto, coach de Recursos Humanos.

Paulo Sardinha, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Rio de Janeiro (ABRH-RJ), observa que a crise, nesse aspecto, foi um prato cheio para as empresas, pois era um mercado que sofria com falta de mão de obra qualificada e, de repente, viu a oferta aumentar e os salários médios caírem:

- Quem tinha ensino superior dava um passo adiante, mas dois para trás, porque pagou pedágio ao se recolocar, com salário mais baixo e menos benefícios. Também se beneficiaram pessoas com ensino superior completo, próximas dos 30 anos, que tinham uma experiência inicial e substituíram pessoas com salários maiores, que perderam seus postos.

MBA, PÓS E MESTRADO AUMENTAM CHANCES

Entre o primeiro trimestre de 2014 e o mesmo período deste ano, o grupo dos ocupados com o superior completo cresceu 25%, passando de 14,11 milhões para 17,66 milhões de pessoas, e a taxa de desemprego dessa faixa teve alta de apenas 2,5 pontos percentuais. Filha de uma empregada doméstica e de um motorista de transporte alternativo que não passaram do ensino fundamental, a psicóloga Bianca Oliveira dos Santos, de 25 anos, tem orgulho de ter concluído a faculdade, no fim do ano passado, apesar das dificuldades financeiras da família no momento mais crítico da crise.

- No meio da faculdade, cheguei a pensar em desistir. Pagava a mensalidade com meu salário de estagiária e só sobravam R$ 20 para todo o resto: alimentação, transporte, material para as aulas. Como meus pais são autônomos, sofreram muito, porque não tinham trabalho, mas eles não deixaram eu desistir - conta Bianca, orgulhosa, ressaltando que é a segunda entre os três irmãos a conquistar o diploma. - Tenho 65 primos de primeiro grau. Só eu, minha irmã e meu irmão, que está cursando engenharia elétrica, fizemos faculdade.

Bianca fez dois estágios enquanto estudava. No segundo deles, em uma indústria de bebidas e alimentos, foi efetivada antes mesmo de concluir a universidade, em agosto do ano passado. Ela acredita que pesaram, para sua contratação, tanto a reestruturação adotada pela empresa para reduzir custos como o fato de cursar a faculdade adequada para o cargo, de assistente de treinamento e desenvolvimento.

- Minha contratação não foi sorte. Eu substituí uma pessoa de nível sênior, que foi desligada e era formada em Administração. Tenho muitos colegas de universidade desempregados, tendo de se virar vendendo cosméticos ou dirigindo Uber - ressalta Bianca.

Sueli Fernandes, coordenadora de recrutamento e seleção da Fundação Mudes, reafirma a importância do diploma de graduação numa seleção de emprego:

- São jovens que venceram barreiras em tempos de cortes de financiamentos estudantis, o que abre oportunidades de especialização e pressupõe maior maturidade.

A coach Dilza acredita, no entanto, que, apesar de o IBGE não captar esses dados, a maioria daqueles que permaneceram empregados são pessoas que, após completar o ensino superior, investiram em MBA, pós-graduação ou mestrado:

- As chances de quem tem especialização são maiores. O profissional que conclui graduação e acha que pode ficar deitado em berço esplêndido sofre mais. É preciso se aprimorar.

Bianca segue esse caminho. Paralelamente ao emprego, é orientadora profissional em uma clínica aos sábados e pretende se especializar nesse segmento da psicologia:

- Hoje o mundo não permite parar de estudar. Vou investir em uma pós-graduação em terapia cognitiva e comportamental e conciliar a indústria com o consultório. E, com essa especialização, já posso pleitear uma promoção, passando de assistente para analista.

Azeredo, do IBGE, também observa que o grupo com ensino superior ficou mais protegido porque a maior parte das demissões, em números absolutos, foi de cargos operacionais: chão de fábrica, canteiro de obras, vendedores.

- Um bom profissional, com qualificação e experiência, tende a se manter ocupado, mesmo com o desemprego alto. Ele tem mais habilidade para empreender, mesmo que seja como motorista de aplicativo - explica.

Fonte: O Globo

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